Deixar ir

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deixar ir E como sempre a vida nos reserva grandes lições. A última que aprendi foi demorada e dolorosa. Na verdade, acho que aprendemos essa lição sempre, todos os dias, porque, a todo momento, podemos ser decepcionados intencionalmente ou não pelas pessoas ao nosso redor. E foi nessa lição da vida que eu aprendi que perdoar é bem diferente de deixar ir, mas os dois só funcionam juntos.

O perdão é realmente divino. Não é natural aceitar que erraram comigo, me machucaram e mesmo assim não querer me vingar, não ter raiva, não me afastar simplesmente da pessoa. Mas é edificante quando o fazemos. Perdoar alguém ou algum erro é revigorante. Realmente alimenta a alma.

Mas de nada adianta o perdão se não aprendemos a deixar ir. Se não limparmos o coração de qualquer sentimento de rancor. Se não paramos de alimentar isso.

E eu acho que é exatamente ai que nascem os traumas de relacionamentos: quando alguém me fere e eu perdoo, mas guardo para mim. Não liberto meu coração dos sentimentos pelo que me aconteceu. Como se eu parasse todo o sentimento com relação àquela pessoa naquele momento, no auge da dor e da decepção. E assim, de certa forma, também não liberto a pessoa de mim.

Quando eu me separei, apesar de não concordar com as atitudes do meu ex-marido, de certa forma perdoei o que tinha acontecido. E me sentia bem com isso. Achei de verdade que era suficiente para me refazer. E, depois de três anos, é que eu fui perceber que, mesmo que internamente, lá no fundinho de mim, eu ainda alimentava uma raiva, um rancor muito grande.

Eu sentia que se eu simplesmente esquecesse, que se eu não alimentasse a raiva por ele, era como se eu estivesse dizendo que o que ele fez não me afetou, foi tranquilo e positivo. E não era assim. Eu queria de certa forma alimentar meu rancor como se ele pudesse sentir isso e perceber o mal que tinha feito a mim.

Mas, no fim das contas, a única que estava morrendo pela raiva que me consumia era eu mesma. E nem me dava conta disso.

Claro que nada acontece como em um passe de mágica. Não acordei um dia e pensei: “vou deixar passar” e pronto! Tudo resolvido e minha alegria de volta. Mas foi todo um trabalho emocional para perceber que o que ele fez não mudou e nem vai mudar. Isso é um fato. Não muda porque eu pense assim ou assado. Mas deixá-lo ir, faz toda diferença.

Pra mim foi mais ou menos como tirar esse sentimento de raiva e rancor do meu bolso e colocar tudo na prateleira das experiências da minha vida. Não dá para simplesmente esquecer, mas pelo menos parar de andar com ele sempre a tiracolo. E lá na prateleira, eu o vejo, porém já não me afeta mais, só deixo lá porque faz parte de quem eu sou.

Esses dias eu estava ouvindo um jogo de futebol na rádio do carro – não que eu seja super fã, mas pelo meu pai até isso eu faço – e achei bem engraçada a forma como o locutor falava. Sei que parece insano lembrar isso agora, mas é que eu comecei a tentar prestar atenção exatamente no que o cara ia falando e cada vez ficava mais difícil entender. É muito rápido! E quando eu ainda estava tentando visualizar uma cena e saber quem era o fulano que ele estava falando, ele já tinha falado mais mil frases.  Depois de muito tentar, eu relaxei e parei de prestar atenção. Foi nesse momento que eu vi o campo de futebol e fui assimilando a essência do que ele ia falando e fui entrando no clima do que ele estava dizendo. Acabei acompanhando o jogo todo sem problemas.

Porque falar isso agora? Porque eu vejo que é assim que funciona o perdão. Se estivermos prestando atenção em cada detalhe, trazendo à tona tudo que aconteceu, a gente para de ver o contexto e acaba ficando muito limitado em poucos acontecimentos.  Mas a partir do momento que se deixa ir, o essencial ressalta aos olhos e nós conseguimos ver o todo. Ver o que é ou não importante e guardar somente a essência da história.

Não tem nada mais libertador que esse “deixar ir”. Estava escutando uma música do John Mayer, “shadow days”, e o refrão diz assim (já com a tecla SAP): “os tempos difíceis me fizeram ver que eu sou um bom homem com um bom coração, que teve um momento difícil, um começo complicado. Mas finalmente eu aprendi a deixar ir. Eu estou aqui e agora. E estou aberto, sabendo que, de algum jeito, meus dias ruins acabaram agora.”

Acho que a música se encaixou perfeitamente nesses pensamentos. Somos boas pessoas e temos um bom coração, mas ninguém está isento de ter momentos difíceis, de se sentir enganado, traído e despedaçado. Mas se aprendemos a deixar ir, sabemos que de algum jeito misterioso, essa sombra se dissipa do nosso coração e tudo volta melhor do que antes. Porque aprendemos com a experiência e já não seremos iguais.

3 ideias sobre “Deixar ir

    • Gabi, não é uma lição muito fácil… Acho que cada um tem que achar um jeito de fazê-lo. Mas eu comecei perdoando, acordava todos os dias e pensava: eu te perdoo por tudo que vc me fez. No inicio parecia forçado, mas depois foi virando verdade. E quando eu senti que estava fácil, tranquilo,parei de pensar no assunto. Me policiava mesmo, não me deixava voltar nele até que ele fosse embora de vez. E ai, com o tempo eu vi que ele foi mesmo. E outra coisa, parei de falar mal dele primeiro e depois com o tempo parei de pensar mal tb (isso alimenta muito a raiva e o rancor…). Não existe receita de bolo, mas o que eu percebi que parte, antes de tudo, da nossa vontade de deixar ir. Na maioria das vezes é a gente que, sem perceber, alimenta.

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