Saudade

49 Flares Twitter 1 Facebook 48 Google+ 0 Email -- 49 Flares ×

No dia de hoje eu não poderia deixar de falar da saudade. Essa desconhecida que, de uma forma misteriosamente boa, nos invade e consome muitas vezes.

saudade
Somente no português existe a palavra saudade. Nas outras línguas, se utiliza como verbo: sentir falta. Alguns podem dizer que no fundo é a mesma coisa. Talvez até seja. Mas verbo me dá quase sempre a ideia de ação. É como se eu estivesse fazendo algo e recebendo a consequência daquilo.

Por isso que eu gosto da palavra saudade. Acho que traduz muito mais o verdadeiro sentido do que está acontecendo. É substantivo, é uma coisa. Tem vida dentro de nós. Aperta nosso peito, às vezes tira a respiração e muitas vezes derrama lágrimas. Eu imagino que quando a falta que eu sinto é muito maior do que eu esperava suportar, ai cria essa coisa, a saudade.

É como se fosse uma doença. A falta da pessoa, ou coisa, ou situação, cria em nós a saudade como sintoma. Assim como tomar chuva pode causar gripe, ou cortar a pele pode dar infecção. Vem sem que você peça. Chega sem nem te perguntar se pode. E cresce loucamente dentro de você sem que se possa fazer muita coisa.

A saudade até tem cura, mas só o tempo ou a presença pode trazê-la. O resto é paliativo: desviar a atenção, ficar cercada de gente, fazer esportes… Ajuda, mas não resolve o problema todo.

Tem tantos motivos diferentes. Qualquer coisa pode criar em nós essa saudade. E ainda que doa, eu não a considero ruim. Se deu saudade é porque foi bom. Ninguém tem saudade de momentos horríveis, de dores imensas ou de coisas ruins que as pessoas fizeram a nós.

Só faz falta aquilo gostaríamos de ter para sempre. Aquele passeio no domingo de manhã, com sol brilhante, vento no rosto e muitos sorrisos. A praia naquela viagem de verão com os amigos. E aquelas pessoas, que não importa o momento, ou o lugar, está perfeito só por tê-las ao lado.

Saudade é o sintoma de vida. Sintoma de que ela foi vivida. Porque só quem vive, se entrega e sente, é capaz de ter saudade.

Hoje é o dia da minha maior saudade: Mariana. Minha menina. Minha filha que hoje completa cinco anos no céu. E com ela aprendi, além de muitas outras coisas, que a eternidade de um amor não se mede pelo tempo que se passa junto, mas a intensidade daquilo que se permite viver. Podem ter sido nove meses na barriga e apenas alguns minutos nos meus braços, mas eu sei que o que vivi ficará para sempre.

É isso que a saudade faz: eterniza o amor.  Podemos inclusive analisar a vida pelas saudades que sentimos, de quem sentimos e como sentimos. E sorrir! E agradecer! Reclamar da saudade só faz aumentar a dor. Ela não foi feita para ser negada, mas para ser vivida.

Algumas saudades tem tempo certo para acabar. E quando acaba… Que sensação maravilhosa receber de novo aquilo que fazia falta! O coração se preenche de novo, e a dor se dissipa como se nunca tivesse existido.  Tem cheiro e cor de desembarque no aeroporto…

E outras saudades se eternizam na vida, seja porque aquele momento, daquele jeito, com aquela pessoa não vai mais existir, ou porque é saudade de alguém que já se foi, e o encontro vai ficar para depois.

Mas, independente de como, quem ou porque, a saudade é parte de quem vive. É orgulho de vida vivida. É aquela dor gostosa que transforma o coração de quem sente.

Que a saudade que a gente sente não nos endureça, mas que nos faça tão leves que possamos voar para perto de quem queremos em qualquer ocasião.

2 ideias sobre “Saudade

  1. Nossa, que texto lindo!!!!! Amei, Karê! A vida é feita de tantas saudades, né… 
    E que linda a sua declaração para a Mariana! Lendo assim me parece que ela foi um presente de Deus ao mesmo efêmero e permanente… Ao que tudo indica pra te dar uma lição mais espiritual que material. Ela com certeza virou um anjo!

    Bjos

  2. Sinta-se abraçada, amiga! Saudade é companheira, não inimiga! Meu coração ficou apertado lendo seu post….

Os comentários estão fechados.