Como nossos pais…

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familiaEsse último domingo eu vivi momentos tensos e de reflexão profunda pelo falecimento da minha avó. Ela era minha segunda mãe. Sempre viveu conosco e ajudou a nos criar. Mesmo sabendo que ela precisava descansar, afinal foram cinco anos lutando com o Alzheimer, foi muito difícil deixá-la partir. A saudade é grande e eu me senti perdendo um dos apoios constantes da minha vida. Mas sei que ganhei também. E muito. Uma intercessora e anjo no céu. Fora todas as lições e conselhos que servem para toda a vida.

Pensei muito na influência que as pessoas têm na nossa vida. Principalmente os mais próximos. O que eu sou hoje é fruto da educação que recebi e que veio da educação que meus pais receberam. Claro que, ao longo dos anos, essa educação evolui, se modifica e se adapta ao meio histórico e cultural da época em que acontece. E também se molda às experiências de vida. Mas, cruamente falando, ela tem a mesma raiz.

Muitas vezes já me irritei pensando: “eu nunca vou educar meus filhos desse jeito!” Mas é impressionante como algumas coisas são mais fortes do que o querer ou não. São hábitos formados desde pequenos. São modos de agir que refletem uma personalidade de grupo que a família forma. É a própria identidade que nos faz pertencentes a uma determinada família e não outra.

Claro que não é estático. Meu pai recebeu um tipo de educação no interior de Minas Gerais, trabalhando na roça, vivendo sem mar. Minha mãe vem do interior de Pernambuco, com sua influência litorânea e a vida de comércio do meu avô. Não teria como eu ter uma educação só de um ou só do outro. Eu e meus irmãos somos uma mistura, um consenso da educação dos dois. Às vezes do melhor deles e outras nem tanto.

A questão é que essa cultura se perpetua. E nós temos que ser conscientes daquilo que é nossa personalidade, e o que vem da influência dos nossos pais. Não para somente rejeitá-la, mas para aperfeiçoá-la.

Minha avó era uma grande guerreira. Saiu do interior de Pernambuco e veio morar em Brasília com meus pais tão logo ficou viúva. E se adaptou a nós. Por mais difícil que isso pudesse parecer. Vivia em perfeita harmonia com a minha família. E foi com esse espírito de adaptabilidade e doação ao outro que ela criou a minha mãe. Dentro de um contexto de uma sociedade totalmente machista, onde a mulher só servia se tivesse utilidade.VOVÓ

Minha mãe aperfeiçoou esse pensamento. Não precisava mais de tanta servidão nem utilidade. Construiu uma família mais pautada na harmonia e no respeito mútuo. Eu nunca me senti menos que meus irmãos. Mas talvez por ser a única mulher, senti o peso da proteção. E passei a minha vida tentando provar que eu não era uma extensão delas – nem da minha mãe e nem da minha avó. E isso muitas vezes causava brigas e muita irritação minha.

Mas morando sozinha por um tempo. Longe da influência direta das duas, eu vi que na verdade, eu sou sim uma extensão delas. Me vi arrumando a casa como elas me ensinaram. Vivendo conforme aquilo que aprendi. Tendo os mesmo tipos de pensamentos e conclusões. Com a minha cara, meu jeito, mas não posso negar que minha criação estava ali, totalmente presente.

Toda minha crítica negativa se transformou em reflexão. Se muitas coisas eu farei do mesmo jeito, se essa extensão é real, o que eu quero perpetuar dessa linhagem de educação? O que eu quero passar para os meus filhos? O que, de tudo o que eu sou, eu quero que meus filhos sejam também? Eles ainda nem nasceram, mas é exatamente por isso que eu acho a reflexão pertinente. Eu ainda posso modificar. Eu ainda posso buscar, nas minhas influências, o melhor e melhorar aquilo que não seja tão bom.

Me pego rindo quando me vejo agindo igualzinho àquilo que tantas vezes critico. Li uma vez que os filhos são uma versão melhorada dos pais. Não sei se melhorada seria o melhor termo. Mas creio realmente que os filhos são uma versão atualizada dos pais.

E foi só refletindo sobre essa perpetuação da personalidade familiar que eu pude entender o sentido da coisa. Não é que meus pais estejam estáticos em relação a vida. Eles já mudaram muito desde que eu os conheci até hoje, assim como todo mundo. Mas eles me deram um norte. Um mapa de ações sobre o que dá certo e o que talvez não tenha saído conforme esperado. Eles fizeram o seu melhor, sem nenhum um tipo de informação, graduação ou treinamento.

Eu tenho orgulho de ser fruto disso. Tenho orgulho de toda a raiz educacional que veio antes de mim, e todas as suas histórias e lutas. Queria, apesar de toda atualização que me ponho a fazer, ser pelo menos 10% do que foi minha avó, e do que é minha mãe. Tenho certeza de que isso já seria sucesso total.

E como diria Elis Regina: “Apesar de termos feito tudo que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos, como nossos pais…”

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