Não é brinquedo, não

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Faz um tempo eu resolvi olhar uns spams do meu email. É, eu sei, coisa de doido. Mas eu tenho essas coisas de vez em quando. Mas fuçando nessa caixa que mais se parece a lixeira, achei uma propaganda que me impressionou. Pela ideia e pela ousadia. Fiquei perplexa por alguns instantes, pensando: “para onde esse mundo está indo?”Traicao

Eu não vou nem botar o nome do negócio aqui para que não digam que eu estou fazendo apologia. Mas a coisa era uma rede social que dizia mais ou menos assim: você que é casado, mas quer viver uma nova aventura, faça seu cadastro aqui e conheça pessoas para um caso de amor.

Perplexo? Pois é. Eu nem acreditei quando li. Não só por eu estar no mailing list deles. Mas também pela ideia absurda de alguém criar um espaço onde se ajude pessoas a quebrarem suas promessas e desrespeitarem aqueles a quem deveriam amar.

E, junto a isso, tenho ouvido várias histórias de pessoas que traem. Em todas, o que mais me impressiona é a facilidade com que pulam a cerca. A tranquilidade em sentir que foi rapidinho, só para testar. Ou porque ele(a) não está aqui, ou porque não tenho certeza se ele(a) é fiel a mim. Ou porque não quer dizer nada para você, é a ele(a) que eu amo de verdade. Como que não dói na consciência?

E a pergunta que sempre me vem à mente é: eu estou errada em achar que casamento é coisa séria? Ou tem muita gente doida nesse mundão de Deus?

Se a pessoa quer viver aventuras de amor, sem problemas. Decisão de cada um. Mas então, não case. Viva tudo que quiser. Você é livre para isso. Mas a partir do momento que se compromete, a aliança foi firmada. Então, no meu ponto de vista, só case quando tiver certeza de que pode lidar com isso.

Eu sei que casamento custa muito e exige bastante dos envolvidos. Sei que é difícil. Mas descobrir uma traição é ainda pior. Dar-se conta de que você apostou todas as suas fichas em alguém que não apostou em você, dói demais. É horrível querer se aventurar com alguém que está por aí, buscando novas aventuras, que não envolvem você.

Acho incrível ver isso. Se não é por amor, que preserve o outro pelo menos por respeito. Ou nem que seja só por não fazer com os outros o que você não gostaria que fizessem com você.

Nenhum erro que se comete, por mais interno que seja, fica somente em quem erra. Todo erro tem consequências nos outros, ainda que eles não sintam diretamente. Mas afeta muito mais do que se possa imaginar. E dura muito tempo. Porque ainda que se cure a ferida, a cicatriz, irremediavelmente, fica para sempre.

E isso vale para qualquer tipo de relacionamento que envolve compromisso. A fortaleza, a maturidade e o caráter de uma pessoa se medem pelo tanto que ela é capaz de assumir a responsabilidade por seus próprios atos. E não só no momento do ato, mas ser capaz de sustentá-lo por toda uma vida.

Claro que tem relacionamentos que não deveriam nem ter começado. E outros que ainda bem que terminaram. Mas o desrespeito nunca é a solução. Para os casos mal resolvidos existe diálogo.

Eu já vi casos de traição em que a pessoa se arrependeu de coração, mudou suas atitudes e lutou para reconquistar aquilo que destruiu. Não julgo quem perdoa. Acho nobre até. E nem posso dizer que não faria o mesmo. Cada caso é um caso. Mas a maioria, infelizmente, não tem remorso. Trai e não entende porque o outro se sente mal. Acha que o louco é o outro que não entendeu sua liberdade.

birra7Faz parte da maturidade reconhecer que não se ama mais. Faz parte do caráter libertar o outro. Faz parte da vida seguir em frente. Só não faz parte disso, enganar e mentir. Deixar no outro a impressão de que ele não vale nada, que não é importante.

Quem trai assim é como uma criança mimada que faz de tudo para conseguir um brinquedo. Chora, esperneia, faz birra. E ai consegue o que queria. Brinca, brinca, brinca. Se cansa, larga de lado e vai em busca de outro que desperte mais a sua atenção. E o brinquedo que ficou para trás, quem se importa? “É apenas um brinquedo. Vai sobreviver. O importante é seguir meu coração e os estímulos que meus sentidos captam nesse momento.” Parte-se para o outro brinquedo sem nem um sinal de remorso.

E em uma coisa essas pessoas estão certas. O brinquedo vai sobreviver. Ele não perdeu seu valor, nem sua beleza, nem sua função no mundo. Basta que não se esqueça disso, e eu tenho certeza que vai sobreviver. Afinal, como diria minha mãe: pior é na guerra, na fome, na miséria.  Gente que não sabe valorizar os outros? Isso não é o fim do mundo.

Para aqueles que foram traídos eu deixo uma frase que vi esses dias: “Toda vez que eu pensei estar sendo rejeitado por algo bom, eu estava na verdade, sendo redirecionado para algo melhor.” (Steve Maraboli)