Dê tempo ao tempo

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tempoAgora que a copa acabou, as coisas voltam para o lugar e os reclamões já tomam seus postos de pessimistas de plantão, podemos voltar a observar o mundo em seu girar normal. E como gira. E como dá voltas rápidas e muda tudo. Muito legal isso.

E minha reflexão dessa semana foi sobre o tempo. Que ele passa muito rápido já é senso comum. E que ele passa mais rápido ainda quando você quer que ele demore uma eternidade, isso também já é pacífico. E como ele não passa quando mais a gente quer que passe, também nem precisa dizer. Mas o que eu fiquei pensando mesmo, foi em como o simples fato de deixá-lo passar faz diferença.

Essa semana me perguntaram como eu fiz para esquecer minhas dores de amor e sentir o coração curado. Eu poderia listar as milhões de coisas que fiz. E fiz muita coisa, pode acreditar. Mas a verdade é que o único que funcionou, foi segurar a onda e esperar o tempo passar. Porque é incrível como que o buraco, que se abre no peito nas desilusões, se fecha totalmente. Basta tempo. Nada mais. O resto é paliativo.

E me veio essa ideia de ferida mesmo. Quando eu era mais nova e muito moleca, eu vivia cheia de ralados, arranhões, cortes e mil machucados. Era bicicleta, patins, correndo, subindo em árvore, brincando de elefante colorido e sete pecados. E sempre a mesma coisa. Sempre fui estabanada. Caía no chão e me quebrava toda. Uma vez em específico, eu fui aprender a andar de walk machine. Não sei de onde tirei essa ideia. Era muito pequena para aquela atividade. Mas enfim, não consegui dominar a geringonça e caí de queixo em um bloco de cimento, desses que se faz em obra para mistura o cimento com a água.

Lembro-me como se fosse hoje a dor dilacerante que senti. Parecia que tinham arrancado meu queixo fora. Chorei loucamente, me debatia no chão. Morri de medo da bronca da minha mãe. E não conseguia olhar no espelho o tamanho do roxo que estava em meu queixo. Estava completamente horrível. E ainda por cima me lembrava que eu tinha sido um fracasso com o tal brinquedo.

Lembro ainda que minha mãe não me deixou faltar à aula. Afinal, apesar do queixo, eu estava fisicamente bem. E eu fui para escola com um mega curativo no queixo. Morria de vergonha e dor ao mesmo tempo. Era horrível estar ali. A primeira aula foi um caos. Tive que explicar mil vezes o que tinha acontecido, mesmo sem conseguir falar direito. Mas cada vez que falava no assunto parece que a vergonha diminuía, a dor parecia mais normal. E eu fui obrigada a viver normalmente: aula, inglês, amigos, conversar na rua, fazer dever de casa… E os dias corriam e a cicatriz foi fechando, o roxo diminuindo e a dor passando.

Em duas semanas eu já nem lembrava do machucado ou da dor. E ainda fiquei na fissura de realmente aprender a andar no brinquedo. Estava pronta para outra. Nunca esqueci essa história, nem a dor e nem a vergonha que senti. Mas passou. E a lição que ficou foi: ou aprender a frear um walk machine ou me acostumar a cair sempre.

Acho que essa e outras mil histórias que eu tive nesse sentido me ensinaram a passar pelo coração partido. E essa é minha maior lição sobre o tempo: ele passa, e com ele todo o resto.

Tem machucado que a gente põe remédio, faz curativo. Mas o que cura mesmo é o tempo. Só enquanto ele passa que a cicatriz fecha, e que a dor sara. E quanto a isso não podemos fazer muita coisa a não ser deixar ele passar. E tentar aproveitá-lo da melhor forma possível.Tempo cura

E só existe uma maneira de fazer o tempo passar: viver. Enfrentar a dor, a vergonha, a raiva e a mágoa, e viver. Se não der para ser feliz porque está doendo muito, não importa. Vive assim mesmo. Vive do jeito que dá. Faça suas coisas, decida sua vida. Siga seu rumo e seus projetos. No início vai ser bem difícil e vai parecer que você está só sobrevivendo. Mas é bem isso mesmo. Sobreviva esses primeiros dias ou meses. São sempre os piores.

Mas depois, sem que você perceba, a ferida vai cicatrizando. E aquilo que doía muito não vai mais doer. O coração vai ficando cada vez mais curado. E tudo que aconteceu vai ser somente mais uma história das muitas que você vai viver.

Acredite. Chega um dia em que não dói mais. E aí, ou você vai aprender a frear o walk machine ou você vai cair de novo. Mas se isso acontecer não se martirize. Porque toda queda tem feridas. Mas todas as feridas saram, basta deixar o tempo fazer sua parte.

2 ideias sobre “Dê tempo ao tempo

  1. Te confesso que cada texto dessa autora espetacular, me faz refletir bastante sobre tudo aquilo que vivemos, passei por uma experiência muito parecida mas foi de bicicleta, depois dessa aprendi que preciso frear a bicicleta, se não vou estar sempre caindo… Um grande abraço parabéns pelo texto..

  2. Adorei! Vc sempre me surpreendendo com seus posts! Parabéns Karê! Falou tudo! 🙂

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