Meu passado me constroi

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Nesses últimos dias eu estava viajando por vários lugares. Uma viagem programada há muito tempo. E apesar do planejamento do percurso, das passagens e hospedagens, eu tentei ao máximo não programar o que fazer por lá. Eu queria de verdade me surpreender. Queria descobrir o prazer de cada instante.passado

E fiquei impressionada como podemos nos maravilhar quando não criamos expectativas. Já falei disso aqui antes, mas quando a gente tenta controlar os momentos, acaba por perder a mágica do instante.

E ali estava eu, sentada em um banco de madeira à beira de um lago. Vários patos passeavam no lago. Vários pássaros voavam no céu. O sol pintava as poucas nuvens do dia, mas não aquecia com toda sua força. O vento frio soprava de todos os lados. E o que eu via do outro lado do lago era um bosque de árvores de outono, com folhas ora vermelhas, ora amarelas. Algumas pessoas passeavam ali. Crianças brincavam e alimentavam os pássaros. Homens jogavam com os amigos. Era simplesmente uma visão magnífica. Não dava para sentir nada além de paz e leveza.

Eu fiquei ali muito tempo sem uma única palavra. Não senti que precisava dizer nada. Era completo, um momento como poucos. E a única coisa que eu pensava era: que bom que eu estou aqui!

Mas nada daquele momento seria possível se eu não fosse quem eu sou. Se eu não tivesse passado por tudo que passei, bons e maus momentos. Se eu não tivesse a família e os amigos que eu tenho. Ou seja, aquela experiência só era possível por toda a bagagem que eu tenho de tudo que vivi e sou.

Isso me trouxe a ideia da importância de honrar minha história. Não porque ela foi sempre incrível, ou por que eu sempre acertei e tive sucesso. Mas simplesmente porque ela me fez chegar onde estou e ser quem sou.

Se um instante, apenas um momento, de todo meu passado deixasse de existir, talvez eu não estivesse naquele lago, ou talvez não tivesse aproveitado com a mesma tranquilidade.

E foi diante daquele lago que eu entendi que o passado precisa ser honrado e aceito. Foi o que foi. Talvez com o que eu sei hoje eu tivesse feito diferente. Porém, naquele momento, eu fiz o máximo que poderia ter feito com as armas que tinha disponíveis. E então não tenho que brigar com isso, mas agradecer.

Porque se luto com meu passado me faço refém dele. Mantenho-me presa a ele. Só que nada vai mudar, exatamente porque é passado, e ele não muda. Já passou. Por mais que eu dê voltas, pense em tudo que poderia ter feito diferente, em tudo que poderia ter sido dito, nada vai mudar.

Não preciso esquecer meu passado. Não preciso fingir que não existiu. Só preciso olhar para ele com gratidão. Seja o que estiver nele, me trouxe até esse momento. E se esse exato instante não me agrada, não é o meu passado que vai fazê-lo diferente. São as minhas decisões de agora. Só o presente é capaz de mudar alguma coisa.

carroUma vez me deram essa imagem de dirigir um carro. No momento em que começamos nossa jornada, apenas 5% da nossa atenção deve ser no retrovisor, 10% no trajeto que vamos percorrer e 85% no momento presente, no ato de dirigir propriamente dito.

Porque olhar no retrovisor nos auxilia a tomar decisões, mas o caminho se constrói a cada quilômetro percorrido. E ainda que você possa olhar para trás e pensar que poderia ter tomado outros rumos, o que importa é qual a sua próxima decisão. Não dá mais para voltar, o caminho já está em curso.

Porém, não se pode deixar de reconhecer que sem o caminho já percorrido não poderíamos estar onde estamos, nem chegar onde queremos.

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