É óbvio

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duvida E começa 2015. Um ano inteiro cheio de novas possibilidades. E quanto mais possibilidades, mais expectativas. Tanto individual, quanto compartilhadas. Mas como lidamos com as nossas expectativas em relação ao outro? E como eu demonstro o que quero e o que sinto?

Porque muitas vezes é tão difícil para o outro entender o que eu estou sentindo? Porque mesmo quando eu dou todas as mostras daquilo que quero a pessoa não entende? Eu estou sendo totalmente transparente. Impossível não saber o que eu quero.

Esses pensamentos me fizeram rir porque eles são bem constantes em mim. E agora eu fui perceber o quanto a obviedade pode ser perigosa. “É óbvio que ele entendeu”; “É óbvio que ela sabe”. E porque é óbvio, eu presumo que o outro sabe e entende tudo o que eu falo e faço. E só esqueço um detalhezinho: o que é óbvio para mim, nem sempre é óbvio para o outro.

A gente realmente pensa que para bom entendedor meia palavra basta. E basta mesmo. Só que não espere que ele vai entender exatamente aquilo que eu espero. Porque dentro da minha história, das minhas necessidades, de quem eu sou, aquilo faz todo sentido. Mas esperar que alguém com outra história, outras necessidades, alguém diferente de mim, entenda do mesmo jeito, parece meio louco, não?

entender-3Se eu peço uma caneta emprestada, é óbvio que eu vou escrever, não é? Mas eu posso simplesmente querer prender o cabelo por causa do calor. E se ninguém perguntar nada, a pessoa vai perder um tempão buscando uma caneta que escreva bem, porque essa bem à mão está falhando.

E da mesma forma, se alguém age diferente comigo e me trata friamente ou com mais distância, é óbvio que eu fiz alguma coisa que ela não gostou e está chateada comigo. E agora ela está me dando um gelo e eu não faço ideia do que foi que eu fiz.

E então já fico com raiva porque essa pessoa só pode ser doida. Ou será que eu realmente fiz alguma coisa? E toda a minha vida ao lado da pessoa passa de uma só vez como em um filme. E eu encontro aquele momento em que disse ou fiz algo que pode ter irritado a ela. Mas não. Não pode ser possível que o outro ficou chateado por aquilo. Eu nem tive intenção de magoar. Falei só porque achei que precisava. Mas tudo bem, se essa pessoa quer me tratar assim, problema é dela. Eu tenho minha consciência limpa. Vamos ver até quando ela vai me tratar assim.

Não sei se é só minha cabeça doida que pensa assim. Mas tudo parece tão óbvio que só pode ser isso. E nunca vem primeiro à minha cabeça que, provavelmente, aquela pessoa está tendo um dia ruim. E que talvez ela nem esteja percebendo como está me tratando. E que talvez se eu perguntasse o que está passando ela iria adorar desabafar. Ou talvez ela só esteja com sono, ou cansada.

E quantas brigas porque “É óbvio que eu queria isso, como você não percebeu?”; “É óbvio que eu quero que me ligue e me chame para sair” ; “É óbvio que eu amo essa pessoa”

E tudo vai ficando mal entendido, pouco esclarecido e pouco conversado. Temos mania de não perguntar, mas de presumir. E pode até ser mais rápido e evitar confrontos. Mas será que não cria mais problemas?

Que tal começar 2015 eliminando os possíveis mal entendidos? Cortando a maior parte dos achismos e das presunções?

CriançasNão é tão fácil quanto parece. Mas acredito que podemos nos tornar mais curiosos da vida e das pessoas.

E me lembrei aqui das crianças de 5 anos. Para elas nada é óbvio. E por isso perguntam e perguntam. Elas não têm como única intenção irritar. São curiosas mesmo. Querem aprender, querem entender e sabem que o jeito é perguntar. Nenhuma resposta vem até nós à toa, sem esforço. Temos que, no mínimo, nos abrir a recebê-la.

A curiosidade e o interesse minam a obviedade. E ainda trazem maior clareza e entendimento. Não há óbvio que não se desfaça diante de um “porque”.

E é óbvio que eu escrevi esse texto para você. Porque é óbvio que você precisava ler isso.

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