Qual o seu ponto cego?

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pontual Eu sempre achei que era importante respeitar o tempo do outro. Não fazer os outros esperarem é parte de demonstrar que você se importa, na minha opinião. E por conta disso sempre me achei a mais britânica do mundo. Não gosto de chegar nem antes nem depois, mas exatamente na hora. Isso meio que virou um ritual. Consultas, reuniões, salão de beleza e etc. Se percebia que não ia conseguir chegar já ligava ou mandava mensagem avisando. E foi uma vida inteira me achando a mais pontual das criaturas.

E acontecia que todas as vezes que ia marcar algo com os amigos, eu recebia aviso para não me atrasar. Ou recebia aquelas ironias de “nem adianta marcar essa hora já que você não vai chegar mesmo”. Aquilo me irritava profundamente. Como assim eu não ia chegar na hora? Eu detesto atrasar! Se eles me conhecessem mesmo saberiam que eu sou mais pontual que chá das cinco. E foram muitos momentos desses. Sentia uma vontade imensa de brigar e gritar com quem me dizia isso.

De repente eu parei para analisar porque eles insistiam tanto nisso. Realmente eu já fui elogiada pela pontualidade em diversos momentos. E meu esforço é de nunca atrasar. Mas o que meus amigos têm de diferente das pessoas com que trabalho, ou dos consultórios que frequento ou da minha manicure? Eles me conhecem intimamente. E não por nenhum compromisso. Mas, por um mistério da vida, gostam de mim exatamente como sou.

E bastou algumas semanas para eu perceber que eu nunca era pontual com eles. Nada de morte, mas sempre atrasava uns dez minutos até meia hora. E quanto mais íntimo o amigo, mais atrasada eu ficava. Realmente não dava para confiar no meu tempo. Aquilo me quebrou por dentro. Eu era uma farsa. Não era tão inglesa quanto imaginava.

Essa descoberta, além de gerar em mim a reflexão de que quanto mais próximo de mim, maior deveria ser meu compromisso com a pessoa, abriu meus olhos para ver que nem sempre o que eu imagino que eu seja, é aquilo que os outros experimentam de mim.

cegos Eu ouvi um ditado que diz: “o último a ver a água é o peixe”. Acho que se aplica perfeitamente ao que quero dizer. Certas coisas são tão naturais em nós, que simplesmente não vemos. Todo mundo percebe, fala, comenta. Mas você tem certeza de que está todo mundo doido. Até que você para e vê que essas pessoas te conhecem bem. Não é que elas têm razão? Você faz mesmo isso que elas estão falando!

E eu lembrei também de tantas pessoas que eu conheço e que tem certeza de que são de um jeito e não percebem que nem sempre agem assim. Falam “eu detesto quem vive reclamando” e não param de reclamar um só instante, inclusive de quem reclama muito. Gente que tudo o que você fala, ela diz que já sabia, mas demonstra nas atitudes que ainda precisa aprender. Ou pessoas que se acham super divertidas quando estão bêbadas e os outros não veem diversão nenhuma. Ou até gente que acha todo mundo difícil de conviver, e a pessoa mesma não facilita em nada. Enfim, alguns exemplos. Mas todo mundo tem um ponto cego. Uma coisa que você jura que não faz, mas que todo mundo percebe menos você.

Eu não acho que se deve dar crédito ao que falam da gente para saber quem somos. Na maioria das vezes são apenas opiniões. Mas temos que confiar em algumas pessoas. Precisamos de um olhar de fora que nos mostre aquilo que não conseguimos perceber. Que nos ajude a aprender algo novo em nós e a reconhecer que sempre podemos melhorar. Família, amigos, coach, terapeuta. Não sei. Temos que ter alguém cujos conselhos ou comentários tenham reflexo em nós. Que ao menos nos façam pensar em nossas atitudes e palavras.

O problema não é ter um ponto cego. Mas não querer enxergá-lo.

É importante ouvir mais atentamente às pessoas que gostam de nós e nos conhecem melhor. Será que elas não têm razão? Será que eu não deveria mesmo ser menos isso ou mais aquilo? Ou pelo menos se questionar porque esse tipo de comentário tem se repetido. Porque tem coisas que as pessoas falam e nós sabemos exatamente o porquê, ou até sabemos que somos assim mesmo e tudo bem. Mas esses comentários que nos incomodam, nos irritam ou chateiam, devem fazer soar em nós um alarme de “olhe melhor para isso”.

Bom, eu creio que meus amigos estão mais felizes agora que eu tenho feito meu melhor para não atrasar com eles. Pelo menos estão se sentindo mais valorizados, eu espero.tirar a venda

Quanto aos meus outros pontos cegos, aí vamos caminhando. Vou descobrindo cada um a seu tempo e criando outros. Sempre na hora certa, nunca antes e nem depois.