Queimando as naus

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largar_empregoAno passado eu tomei a decisão de sair do meu emprego. Não foi nada fácil para mim. Exigiu uma coragem que eu nem sabia que tinha. Mas eu sabia que eu precisava mudar de direção. Fazer aquilo que realmente queria fazer. E como a orientação que eu tive sempre foi a de sair de um emprego quando já estiver com outro certo, simplesmente largar tudo sem a certeza de algo parecia muita loucura. Mas eu sentia que precisava tentar. Sabia que não dava mais para me agarrar em coisas que não me levavam aonde queria. E o salto no escuro, apesar de prazeroso, foi extenuante. Afetou meu corpo, minhas emoções e exigiu largar o controle e aprender a respirar.

Conversando com meu irmão, ele me falou de uma expressão que eu não conhecia e achei bem interessante. “Queimar as naus”. Pesquisando mais sobre a origem dessa expressão eu descobri histórias interessantíssimas. Essa frase veio com as guerras de conquistas de territórios no início das civilizações. Quando as tropas chegavam as terras que iriam disputar, para mostrar o quanto estavam motivados a vencer e que dali somente sairiam vitoriosos ou mortos, desembarcavam e queimavam as naus. E com isso, se colocavam ali para o tudo ou nada. Não tinham como voltar, era dali para a frente. Com toda coragem enfrentando o que o destino reservasse.

Loucura? Parece, não é mesmo? Pelo menos não é o jeito que nós fazemos as coisas normalmente. Sempre buscamos os pontos de apoio, onde eu vou me segurar caso não dê certo o que eu estou pensando. Não queremos parecer loucos ou inconsequentes. Queremos estar seguros das nossas decisões. E parte disso é fazer o que é normalmente aceito. Ousar, mudar de rumo, largar aquilo que é seguro sempre causa frio na barriga.

E eu percebo que para as pessoas ao redor é mais ou menos como assistir seu desempenho em saltos ornamentais nas olímpiadas. Eles sabem que você é capaz de fazer o que faz. Mas até que você salte, dê certo e saia da piscina tranquilo e vitorioso, eles ficam na apreensão. Quase sem respirar. Acho que não teria como não ser assim. Por mais suporte que você receba, em casa ou dos amigos, eles sempre estarão apreensivos pelo seu resultado. Mas orgulhosos também, porque entendem a dificuldade e te admiram por pelo menos tentar.

Só que a sensação mais buscada nos dias de hoje é a estabilidade. É saber que aconteça o que acontecer, tudo segue igual. Tem suas grandes vantagens. Principalmente quando já estamos onde queremos. Só que corremos o risco da comodidade também. Ficar onde está é sempre uma possibilidade bastante viável. Mas ela também tem custos que eu devo considerar se vale a pena.

Queimar as naus era um ato simbólico. Na nossa vida diária, nem sempre é preciso um grande ato simbolizando isso. Queimar as naus é romper com a possibilidade de voltar atrás. É partir para o tudo ou nada.naus

Queimar as naus é simplesmente aceitar que é para frente que se anda. E que se eu tomo uma decisão, eu tenho que aprender a me virar de uma nova forma. Senão a gente nunca larga o osso de verdade. Senão tudo o que a gente vai fazer é experimentar um pouquinho do novo, e quando der medo eu corro para tudo que eu tinha e fico lá quieta. Até dar vontade de novo de sair. E depois voltar correndo para o que já conheço.

Fazemos isso com um monte de coisas. Aquele relacionamento que eu já sei que não quero mais. Esse emprego que eu não gosto. O curso que é não bem o que eu quero. A carreira que escolhi porque meus pais achavam que dava dinheiro. E mil ideias que temos, coisas que descobrimos que nos exigem deixar de lado posturas, atitudes e pensamentos.

Sentir-se seguro é importante. Mas muitas vezes, no afã de se sentir seguros, não ousamos. Não tomamos as rédeas da nossa vida e vamos com tudo. Muitas vezes para estar seguros, nos mantemos exatamente onde estamos. E fechamos os olhos para os novos mundos e oportunidades.

Claro que não estou falando que todo mundo deve deixar seu emprego. Esse foi só um exemplo na minha vida. Mas precisamos queimar as naus para enfrentarmos as decisões que tomamos de peito aberto. Com toda a insegurança, com toda incerteza que isso pode trazer. Porém, deixando despertar em nós a coragem, a inovação, a criatividade de fazer com que o novo dê certo.

12Como queimamos nossas naus hoje? Cortando a possibilidade de voltar a agir como antes. Parando de deixar um pé atrás e pulando com os dois pés na oportunidade que aparece. Ocupando nossa cabeça com novos pensamentos que nos ajudem a enfrentar a nova situação. E buscando ajuda para sustentar o novo caminhar.

Sem ter o navio para onde voltar, partimos rumo ao desconhecido. A vitória não depende somente do quanto nos empenhamos em vencer, mas principalmente do quanto estamos dispostos a aprender com o novo e nos refazer com ele.