De quem é a culpa?

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Meu carro pifou comigo um tempo atrás. Simplesmente me deixou na mão no meio da rodovia, sem sinal de celular. Sozinha. Na hora eu me senti traída pelo melhor amigo. Como ele podia fazer isso comigo? Conversei com ele, fiz umas rezas e não sei dizer exatamente o que foi que resolveu, mas ele voltou a andar. Como em um passe de mágica. E eu super satisfeita voltei para casa.

Passei um mês e meio contando com essa camaradagem do meu carro. Isso mesmo, um mês e meio sem levar no mecânico nem por alívio de consciência. Achei que ele era meu parceiro e não ia me faltar mais. Ele tinha aprendido a lição.

O problema é que eu não aprendi. Então um outro dia, eu saindo de casa para uma reunião e ele pifa novamente. No meio do trânsito intenso, de um dia de semana no horário da ida para o trabalho. Indiscutivelmente meu carro não entende bem de horários e locais para pifar. Mas não dá para exigir isso dele. Afinal ele é só um carro. Quem deveria pensar era eu.

No mesmo momento em que o sentimento de traição veio à tona, e eu tive vontade de me fazer a maior vítima do típico “tudo só acontece comigo”, eu lembrei quem não tinha levado o carro no mecânico. Eu lembrei exatamente quem me colocou naquela situação. Fui traída sim. Por mim mesma. Pelo “deixa para lá” que eu adotei na vida. Pelo “já eu resolvo” que eu vivo me falando. Eu estava ali, parada no acostamento, respirando profundamente para não gritar, chorar ou ter qualquer outra reação que me impedisse de pensar no que fazer.

Até que percebi que dizer que a culpa era minha e ficar puta de raiva porque eu poderia ter feito diferente, não iria adiantar de nada. Eu estava ali, atrasada para a reunião, parada no meio do trânsito louco, e meu carro não iria funcionar na conversa dessa vez.

Pensei nas possibilidades e em algumas consequências – impossível prever todas – e tomei a decisão que acreditei ser a melhor para aquele momento. Era a mais perfeita? A melhor? A mais correta? Nem me permitir andar nessa direção. Tudo que eu precisava era de uma decisão qualquer.  E foi o que fiz. Chamei o guincho levei no mecânico e fiquei um bom tempo sem carro.

É incrível como a gente se coloca no papel de vítima do mundo com tanta facilidade. E achar o culpado muitas vezes é uma das maiores desculpas e um dos maiores limitadores que temos na vida. Saber de quem é a culpa adianta quando precisamos identificar as responsabilidades e o alcance das consequências do problema. Mas na maioria das vezes, apenas queremos saber quem é o culpado para garantir que não sou eu. E se não sou eu, não é minha responsabilidade, logo, eu posso continuar em paz e seguir o caminho. Vou resolver o problema? Vou mudar a situação? Vou abrir possibilidades? Não, só quero me certificar que a culpa não é minha.

E se for minha culpa? Só assim eu resolvo algo ou tomo uma decisão? Realmente o carro era meu. Fui eu que negligenciei o conserto dele. Fui eu que me coloquei naquela situação. E ainda assim, senti raiva do carro, do mecânico, do seguro, da concessionária e do mundo todo que me fez estar ali. Aqui é muito fácil perceber o vitimismo.

Mas, e quando o problema é a corrupção? O lixo nas ruas? Furar a fila? Nesses casos eu encontro facilmente um culpado bem distante de mim para achar que a responsabilidade não é minha. A culpa é dos políticos, é desse povo que não tem educação para jogar lixo no lixo ou para furar fila. E eu, sigo vítima desse mundo sem freio.

E se, só para variar um pouco, eu assumisse que a culpa é minha e fizesse algo a respeito? E se eu catasse o lixo da rua e colocasse na lixeira? E se eu parasse de furar fila? E se eu fiscalizasse a mim e aos outros constantemente para evitar corrupções? Será que eu pararia de ser vítima de uma sociedade cruel e mal-educada?

Posso até não ser culpada de todo mal do mundo, mas sei que sou responsável por fazer do mundo um lugar melhor.

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